A “stocking frame” de William Lee
História das máquinas de tricotar domésticas (1)
Ao contrário dos teares, as máquinas de tricotar não são uma ferramenta ancestral cujas origens possamos datar dos primórdios da civilização. Mesmo os vestígios materiais de malhas feitas à mão são difíceis de encontrar e podemos apenas pressupor o seu aparecimento mais tardio na história civilizacional com base, não só na ausência de provas materiais, como também na sua omissão em mitos e lendas, ao contrário do que acontece com a tecelagem e a fiação.
No entanto, apesar das suas origens historicamente mais recentes, as máquinas de tricotar domésticas são bem mais antigas do que aquilo que poderíamos supor ao olharmos para as suas versões atuais, embora estas mantenham algumas das características das suas ancestrais e, com exceção dos modelos com memória digital, continuem a funcionar de forma meramente mecânica, sem necessidade de energia elétrica.
A sua história está devidamente documentada e começa com um primeiro protótipo, a chamada “stocking frame”, de William Lee, inventada em 1589, na Inglaterra da época isabelina.
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A lenda em torno da invenção de William Lee alega que este a teria concebido como forma de acelerar a produção de meias em tricot manual a que se dedicava a sua esposa, de forma que esta tivesse mais tempo para lhe dar atenção.
Ao contrário da sua invenção bem real, as histórias em torno de William Lee, desde o seu local de nascimento, profissão e casos amorosos, não podem ser comprovadas e podemos apenas deleitar-nos com o picaresco dos seus pormenores.
No entanto, sabe-se que na esperança de obter uma patente, Lee demonstrou o funcionamento do dispositivo a Isabel I, mas esta recusou atribuir-lha com receio que a invenção prejudicasse as indústrias domésticas de tricotagem manual de meias, devidamente protegidas por guildas profissionais.
Perante a recusa de Isabel I, Lee terá emigrado para França com o seu irmão James, levando consigo nove trabalhadores e nove “frames”, tendo finalmente conseguido obter uma patente junto do rei Henrique IV de França e dado início ao fabrico de meias em Rouen, onde beneficiou de algum sucesso até ao assassinato do Rei, em 1610.
Em 1614, assinou um contrato com um tal Pierre de Caux para fornecer máquinas de tricotar para o fabrico de meias de seda e lã, sendo este o último registo conhecido da sua atividade.
Depois da sua morte, os seus trabalhadores e provavelmente o seu irmão James regressaram a Inglaterra e desfizeram-se da maior parte das “frames” em Londres, antes de se mudarem para perto de Nottingham, onde um aprendiz de Lee, John Aston (ou Ashton), um moleiro, continuou a trabalhar na “stocking frame”, na qual introduziu uma série de melhoramentos, o que levou à criação de dois centros de produção de malhas, um em Londres e outro em Nottingham.
A “stocking frame” de Lee era constituída por uma estrutura de madeira robusta e produzia um tecido reto, não tubular. A máquina imitava os movimentos do tricot manual e era acionada por um sistema de alavancas e de pedais.
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Neste vídeo, produzido pela Leicestershire Industrial History Society, podemos ver em funcionamento uma máquina de tricotar oitocentista, reminiscente das “stocking frames” de William Lee, e perceber melhor como esta funcionava (embora a máquina apresentada produza já um tecido tubular).
Tal como nas máquinas de tricotar domésticas atuais, a estrutura de William Lee tinha uma agulha para cada malha, com extremidades em forma de gancho. O fio era colocado sobre as agulhas, atrás das suas extremidades. Estas, quando pressionadas, formavam uma laçada, fazendo passar o fio por dentro da malha já formada anteriormente.
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A primeira máquina tinha oito agulhas por polegada e era adequada para lã grossa. Lee teria então inventado uma outra versão que apresentava 16 agulhas por polegada e podia tricotar fios de seda finos.
Para quem conhece as máquinas de tricotar atuais, muitas delas disponíveis em segunda mão, esta particularidade evoca imediatamente estes equipamentos mais modernos, nos quais o funcionamento das agulhas obedece precisamente ao mesmo princípio, com a diferença que as agulhas das máquinas mais atuais apresentam um fecho (“latch”), inventado mais tarde e grandemente responsável pela otimização do funcionamento das máquinas de tricotar. Mas isto são contas de outro rosário!
Esta história extraordinária, com mais ou menos invenções à mistura, permite-nos aferir algumas curiosidades interessantes.
A primeira diz respeito à existência de uma próspera e significativa indústria doméstica de tricot manual, pelo menos no que diz respeito à Europa Ocidental, particularmente vocacionada para a produção de meias, em lã ou em seda.
A segunda, permite-nos depreender que a produção de peças de vestuário em malha, mesmo depois da invenção de William Lee começar a desenhar os primórdios da industrialização têxtil, se manteve durante bastante tempo confinada a um registo de indústria doméstica.
E a terceira que a necessidade de produzir em grandes quantidades peças em malha, em que as características do tecido obtido diferiam das características dos tecidos produzidos em tear, estava ainda reservada a um número relativamente restrito de peças de vestuário (meias, sobretudo), que pela natureza da sua utilidade exigiam a maleabilidade e elasticidade características do tecido em malha por oposição aos tecidos produzidos em tear.
Algures num futuro ainda algo longínquo, a disseminação do uso de vestuário mais confortável e até desportivo obrigará ao aumento de produção de tecidos em malha e à sua industrialização em larga escala.
Science Museum Group. The Art of Stocking Frame Work Knitting. 1983-696 Science Museum Group Collection Online. Accessed 10 January 2025. https://collection.sciencemuseumgroup.org.uk/objects/co67001/the-art-of-stocking-frame-work-knitting.






